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Pesca do Atum II - Armações de Tavira - Estupeta de Atum

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 Pesca do Atum  II -  Armações de Tavira

Terá sido por volta de 1433 que o Infante D. Henrique terá recebido, do rei D. Duarte o exclusivo da pesca do atum no Algarve. Em 1440, D. Duarte concedeu o arrendamento das almadravas a negociantes estrangeiros. Em 1502 o rei D. Manuel I terá criado, em Lagos, a Feitoria das Almadravas. Em 1550, terá surgido em Faro uma feitoria autónoma da de Lagos, por iniciativa da rainha D. Leonor, proprietária das armações existentes na costa próxima de Faro. Nos finais do século XVI, Lagos seria o mais importante centro de exportação de atum, desenvolvendo importantes relações com os países mediterrânicos. Este comércio manter-se-ia próspero por mais meio século. Na primeira metade do século XVIII, ter-se-á observado um período de crise do atum, para em 1773, o Marquês do Pombal dar novo alento a esta indústria através da criação da Companhia Geral das Reais Pescarias do Reino do Algarve e da adopção de um conjunto de medidas de apoio a esta indústria. Será por volta de 1800 que se assiste ao aparecimento de quinze armações de atum, localizadas entre Lagos e Tavira. Depois de uma fase de algum declínio desta indústria nas primeiras décadas do século XIX, a partir de 1830, é extinta a Companhia Geral das Reais Pescarias e assiste-se à criação de várias sociedades de pesca por ações e à introdução de novas tecnologias. Consta que no final do século dezanove, uma armação algarvia pescou cerca de quarenta e um mil atuns e que, por vezes, chegavam a apanhar exemplares com mais de dois metros e trezentos quilos de peso. Iniciou-se, então, um dos períodos mais ricos, que se prolongaria até à primeira década do século XX. Em 1898 existiam na costa algarvia dezoito armações de atum. Observa-se, então um novo e definitivo período de declínio da pesca do atum devido aos custos de produção, a redução das capturas e a inundação do mercado externo de conservas de atum com origem noutros países que realizavam as suas capturas no Atlântico Norte e na costa de Angola.

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 As armações eram uma arte de pesca do tipo armadilha fixa, de grande extensão, aberta ou não à superfície. Constituídas por redes verticais sustentadas por estacas, bóias, cabos e âncoras, armando uma série de canais, barreiras e câmaras, através dos quais os peixes eram conduzidos até ao “copo”.

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 Dividiam-se geralmente em diversos compartimentos podendo, ou não, ser fechados na base por um pano de rede. As Armações tiveram grande importância na pesca do atum e da sardinha, contribuindo significativamente para o desenvolvimento da indústria conserveira em Portugal. As armações da sardinha duraram menos tempo que as armações do atum, a última instalação destinada ao atum, no Cabo de Santa Maria, encerrou a sua actividade em 1968. O desaparecimento das armações do atum deveu-se, não só a questões de rentabilidade económica, mas também, e sobretudo, a um progressivo afastamento do atum em relação à costa. As armações do atum eram mais vulgares na costa algarvia, embora na costa ocidental também tenha existindo algumas: Cabo de São Vicente, Arrifana, Pedra e Ponta da Galé, Setúbal/Sesimbra, Cabo Carvoeiro, etc.).

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 «O atum é um peixe migratório que na primavera inicia uma rota desde o Atlântico até ao Mediterrâneo, culminando no Mar Negro, tendo como única passagem o estreito de Gibraltar. Como o atum é bastante tímido e assustadiço ao ver as negras redes de pesca eriçadas, impermeabilizadas em alcatrão, numa estrutura fixa por âncoras e bóias que mais parecia um dédalo de corredores ou de ladrilhadas muralhas medievais, afastava-se para um canal que o conduzia até ao “copo”,

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 uma espécie de armadilha de onde não podia sair senão fisgado na ponta do arpéu dos pescadores, debruçados sobre as redes numa luta desigual entre a força e o engenho, à qual eufemisticamente chamaram a “tourada do mar”,

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 mas que não passava dum verdadeiro ritual de sangue» O meu pai em pequeno foi ver a pesca do atum, e ainda se lembra do cheiro do sangue e dos cantares dos homens, cantou um pouco, e parece cantar de Indígenas. “Arribolé, arribolé, arribolé…”

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 «As armações lançadas no Algarve eram verdadeiras obras de engenharia náutica, bastante onerosas, constituídas por quilómetros de redes, centenas de âncoras e milhares de bóias, dando trabalho e pão a inúmeras famílias de pescadores.

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 A tradição desta pesca passava de pais para filhos. Conforme o regime dos ventos oscilava também a limpidez das águas, sendo tanto mais proveitosa quando mais cristalinas fossem as águas. E isto porque o atum, embora bastante corpulento era muito assustadiço preferindo marginar as redes em vez de investir contra elas, sendo por isso imprescindível que as visse, razão pela qual as águas teriam de estar límpidas.

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 Caso contrário esbarravam na armação danificando a sua estrutura, mercê da confusão que a partir dali se estabelecia no grupo de tunídeos. Pior do que isso seria a entrada do roaz na armação, expressão que o povo consagrou como sinónimo de grande confusão ou de violenta perturbação da ordem. O roaz é um pequeno cetáceo de apenas 1,5 metros de comprimento, bastante voraz, que persegue os atuns para num golpe de agilidade e força lhes arrancar o fígado, muito rico em gorduras. Um cardume de atuns, perante o ataque do roaz, é capaz de investir contra a armação e infligir-lhe danos irreparáveis.

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 A presença do roaz na costa algarvia poderia significar a perda de um ano de trabalho. Por isso existiam barcos avançados à armação, como se fossem vigias para afugentar os roazes». Roaz era o que a minha avó chamava ao meu irmão, agora já percebo porquê, pois quando era pequeno era uma bela peste.

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 As armações de pesca do atum achavam-se espalhadas por toda a costa do Algarve, pertencentes a grandes empresários ou a sociedades de investidores. Sabe-se que pelo menos em 1797 fainava nestas águas a Companhia de Pescarias do Algarve, fundada anos antes pelo Marquês de Pombal.

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O recorde das capturas por redes de cerco pertence às armações do Barril e Medo das Cascas, que no ano de 1881 pescaram respectivamente 46.825 e 40.729 atuns, de direito e de revés».

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 1959 o principio da crise da pesca do Atum no Algarve

Em 1959 a situação económica das Companhias de Pesca do Atum que armavam na costa Algarvia era bastante gravosa.

No começo do séc. XX, a pesca estava reduzida a 5 artes fixas; Abóbora, e Senhora do Livramento, da Companhia Balsense no Algarve, Medo das Cascas, da Companhia de Pescarias do Algarve, Barril ou três irmãos, da Companhia de Pescarias Barril ou Três Irmãos, e Cabo de Santa Maria, Ramalhete e Forte.

Pouco mais de meia dúzia de anos, a falta de pesca havia derrotado completamente a situação económico-financeira das empresas, que a partir de 1966 começaram a desaparecer.

A primeira a não lançar as suas artes foi a do Barril, em 1966, seguindo a do Cabo de Santa Maria, no ano seguinte (1967). Em 1968, a Companhia de Pescas Balsenses, que mantinha duas artes, apenas passou com a Armação da Abóbora, tendo suspendido a pesca pela armação do Livramento.

Na temporada de 1971, a armação da Abóbora esteve igualmente para suspender a pesca, acabando por deitar em parceria com o Barril, aproveitando o material ainda existente nas duas companhias: Balsense no Algarve e Pescarias Barril ou Três Irmãos.

 

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 A extinção da pesca do Atum na costa Algarvia veio a verificar-se no ano imediato (1978), ainda com uma tentativa desesperada, numa parceria das Armações Medo das Cascas e Abóbora, cujo resultado foi a captura de um único Atum.

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 Actualmente, há apenas uma armação do atum, em Olhão/Tavira, cuja produção de tunídeos segue para o mercado português, mas também inglês e holandês. O aumento do número de restaurantes de sushi, e o aumento dos combustíveis obrigou a Empresa de Pesca e Tunídeos, com capitais portugueses, mas que funciona com técnicos e tecnologias japonesas, a mudar o perfil da exportação do pescado. Até há pouco tempo, a empresa capturava o atum, através da armação, e enviava o peixe fresco directamente de avião para o Japão, onde era vendido a preços astronómicos pela grande qualidade que lhe era conferido por especialistas japoneses. Hoje em dia, 95% dos atuns é destinado ao mercado europeu.

A Almadraba a tuneira- Ilha da Abobora part 1 

A Almadraba A Tuneira- Ilha da Abobora part 2 

 A Almadraba A Tuneira- Ilha da Abobora part 3 

Armação de Cacela ou da Abóbora | Tavira

Em 1838, após os Lib­erais terem des­feito o monopólio estatal da pesca do atum, uma Com­pan­hia de Pescarias Lis­bo­nense criou uma armação para a apanha de atuns ao largo da costa de Cacela. Chamava-se Armação de Cacela, ou Armação da Abób­ora, e os seus equipa­men­tos e tra­bal­hadores eram abri­ga­dos num con­junto de cabanas cons­truí­das na ilha. Ilha de Cabanas hoje em dia tem esse nome, por causa disso. Ou Ilha da Abób­ora, como tam­bém é des­ig­nada. Todo esse arra­ial, que entre­tanto mudara de pro­pri­etário, foi destruído pelo mar em 1962. A armação con­tin­uaria activa por mais dez anos, mas a ilha nunca mais seria habitada.

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Armação da Praia do Barril | Tavira

Situada na Praia do Barril (Pedras d’el-Rei/Tavira) a Armação do Barril, ou dos Três Irmãos, terá sido fundada no ano de 1841, tendo funcionado até ao ano de 1966. Hoje, a praia é conhecida, sobretudo, pelo seu singular “cemitério de âncoras”, utilizadas para fixar a terra as já desactivadas armações de pesca do atum e da sardinha.

 Almadrava (2 Versões) - Armação do Arraial Ferreira Neto, Tavira - Portugal 

Armação do Medo das Cascas | Tavira

Na ilha de Tavira tam­bém houve uma armação de atum, onde está a barra de Tavira, que também foi levada pelo mar ficando apenas nas 4 águas o Arraial Ferreira Neto, hoje um hotel. Mas na ilha ainda se pode encontrar algumas casas que outrora pertenciam à armação e que os locais compraram para casas de férias. São únicas pois não se pode construir na ilha. E do outro lado da barra ainda se pode ver as ruinas dentro de água e enterradas na areia. Mas já quase não se vê nada.

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 Armação do Livramento ou Senhora do Livramento | Tavira

Existiu entre Santa Luzia e a Fuzeta em frente ao Livramento dai o nome, mas levada pelo mar como aconteceu com todas as outras, menos a do Barril. Teve o seu fim em 1968.

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A Companhia Pescarias do Algarve (CPA) ícone de Tavira, foi fundada em 1835, é a mais antiga companhia de pescas ainda em atividade em Portugal.

Embora muitos dos seus inúmeros accionistas residissem em Faro, bem como noutras cidades do Algarve e em Lisboa, também os havia de Tavira, nomeadamente ligados a algumas das famílias tradicionais da nossa terra, sendo que a principal actividade da empresa era, por essa altura, a pesca do atum, através de redes fixas no mar, as armações. No caso, através da armação do Medo das Cascas, lançada frente à Ilha de Tavira, pelo menos desde o Século XIX.

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A prosperidade foi muita e a testemunhá-lo o Arraial Ferreira Neto, construído entre 1945 e 1949. 

O afastamento do atum das nossas águas nos finais do Século XX, levou a empresa a encerrar esta atividade em 1972, dedicando-se a partir dessa data a outras modalidades de pesca, sendo o arraial alienado para o actual aproveitamento como unidade hoteleira.

Foi pois, a CPA com a sua armação para a pesca do atum, um dos principais sustentáculos da economia do concelho de Tavira nos Séculos XIX e XX, até ao encerramento da referida actividade em 1972, podendo ser por isso considerada como um ícone da nossa terra.

O reaparecimento do atum na costa do Algarve, com o sucesso na sua captura por parte de uma empresa, luso japonesa, a TUNIPEX, levou a administração da CPA, a conduzir e conseguir fazer aprovar dois projectos de financiamento para o lançamento de duas armações fixas, uma ao largo da Ilha da Barreta, em Faro, a Armação do Cabo de Santa Maria, e outra ao largo da Ilha de Tavira, próxima ao lugar onde era lançada a antiga Armação do Barril, a qual adoptou esse mesmo nome.

Se no caso da Armação do Cabo de Santa Maria faz sentido que o Porto de Olhão seja o porto de apoio ao exercício da respectiva actividade, já no caso da Armação do Barril, a referida situação, de ter o porto de apoio em Olhão, não faz sentido nenhum, para além de ser totalmente antieconómico, face à distancia que o mesmo porto se situa da área de operação da armação, com os respectivos custos acrescentados, para além do tempo de transito factor determinante para a qualidade, e perda de valor, do atum capturado, o qual normalmente se destina à exportação para os mercados dos países do extremo oriente, no caso o Japão.

O que faria sentido, quer em termos económicos, da empresa e da nossa cidade, quer em termos históricos e sociais, quer ainda em termos iconográficos, seria utilizar o Porto de Tavira para a operação de apoio à Armação do Barril. Porque não se faz ou fez? Porque Tavira não tem um Porto de Pesca, fala-se em fazer um, mas para quando?

Tavira, a terra da pesca do atum, com uma fortíssima identificação social, económica e gastronómica, com esta espécie, fica assim arredada do potencial económico que a referida actividade poderia ter para esta comunidade tão carecida de desenvolvimento.

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Estupeta de Atum

A estupeta de atum é bastante apreciada, infelizmente muitos portugueses não conhecem este prato típico algarvio.

Este prato é confeccionado a partir de tiras de atum desfiadas e normalmente o atum é vendido em baldes.

Estupeta são as aparas da Muxama de atum conservadas em salmoura. Ao acertar a muxama em fresco ficam tiras de atum que são salgadas em salmoura (salga húmida).

Este processo nunca é inferior a 25 dias. Finda esta maturação feita em sal, as tiras de atum são desfiadas em bocados pequenos, depois lavados em três ou quatro águas e espremidos.

A estupeta é habitualmente servida como salada fresca, com cebola, pimento verde e tomate, e temperada com pimenta, azeite e vinagre. Um petisco fresco e revigorante!

Para as refeições leves, rápidas e frescas que agora apetecem ou simplesmente como petisco de qualquer altura…

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Receita de Estupeta de Atum

 

750gr de atum para estupeta

2 cebolas

500gr de tomate encarnado mas rijo

2 pimentos verdes

5dl de azeite

2,5dl de vinagre

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Ripa-se o atum à mão, lava-se em água fria e espreme-se muito bem, apertando-o. Lava-se e espreme-se as vezes que forem necessárias para retirar o excesso de sal ao atum. Depois de muito bem espremido deita-se numa taça de vidro ou de barro. Juntam-se as cebolas, o tomate e o pimento cortados aos cubos. Rega-se tudo com o azeite, mexe-se e, no final, adiciona-se o vinagre. Volta a mexer-se a estupeta e conserva-se no frigorífico ou em local muito fresco durante pelo menos duas horas.

 

 

Pesca do Atum - Bifes de Atum com tomate de Tavira

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 A Pesca do Atum

O atum pertence ao género dos acantopterígeos e à família dos escombrídeos, sendo a espécie mais vulgar o Thymus thymus, cujos melhores exemplares podem atingir dois metros de comprimento e novecentos quilos de peso. Esta espécie costuma avistar-se em grupos de duas ou três dezenas nas águas quentes do Atlântico e do Mediterrâneo.

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 São raros os grupos que passam do Golfo da Gasconha ou da Biscaia. Importa esclarecer que existem dois tipos de atuns com interesse económico, frequentando as águas atlânticas. A espécie de maior porte já aqui citada. A mais pequena,  o Thymus brachyterus, é a mais abundante no Mediterrâneo. Ambas são capturadas nas artes de cerco do atum lançadas nas praias do Algarve e da Andaluzia. Para além do interesses alimentar dos tunídeos, também deles se aproveita um óleo rico em gorduras e vitaminas hipossolúveis utilizados na indústria farmacêutica para a produção de medicamentos e de cosmética.

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O atum é um peixe migratório que na primavera inicia uma rota de desova, que vai desde o Atlântico até ao Mediterrâneo, culminando no Mar Negro, tendo como única passagem o estreito de Gibraltar. As migrações dos tunídeos são profundamente sensíveis à corrente marítima do gulf-stream, que se inicia no golfo do México e, formando uma diagonal, atravessa o Atlântico em direcção à costa europeia, influenciando claramente o clima e as pescas marítimas. Essa corrente, forma nas águas diferentes camadas de temperatura e até de salinidade, mantendo-se ao lado das outras correntes sem se misturarem. Até ao início do século passado desconhecia-se o princípio da imiscibilidade das águas marítimas, razão pela qual se explica hoje a alteração dos recursos marinhos e as capturas pesqueiras, sendo disso sensíveis os cardumes de sardinha e as migrações do atum. No verão, as correntes quentes do golfo progridem pelo hemisfério norte e retrocedem no hemisfério sul, invertendo-se a situação no inverno. Por isso é que as pescarias são mais abundantes nos finais da primavera e princípios do verão. Na costa portuguesa, e sobretudo nas praias algarvias, a corrente equatorial chega no mês de Maio, atingindo o golfo da Gasconha no mês seguinte. É neste período que chega o atum, chamado de “direito”, quando as águas atlânticas atingem uma temperatura superior a 14ºC.

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 As espécies piscatórias, com interesse económico e transformação industrial, dependem das correntes marítimas, da latitude solar e da sua constituição biológica. Assim, o atum, a cavala, a sardinha e a anchova abundam nas águas quentes da costa europeia do sul, enquanto o arenque e o bacalhau preferem as águas frias do norte. Logo, a economia das pescas no continente europeu distribuiu-se pela abundância do pescado, ou seja, pela distribuição das correntes do golfo. As armações lançadas no Algarve eram verdadeiras obras de engenharia náutica, bastante onerosas, constituídas por quilómetros de redes, centenas de âncoras e milhares de bóias, dando trabalho e pão a inúmeras famílias de pescadores. A tradição desta pesca passava de pais para filhos. Conforme o regime dos ventos oscilava também a limpidez das águas, sendo tanto mais proveitosa quanto mais cristalinas fossem as águas. E isto porque o atum, embora bastante corpulento, era muito assustadiço, preferindo marginar as redes em vez de investir contra elas, sendo por isso imprescindível que as visse, razão pela qual as águas teriam de estar límpidas. Caso contrário esbarravam na armação danificando a sua estrutura, mercê da confusão que a partir dali se estabelecia no grupo de tunídeos. Pior do que isso seria a entrada do roaz na armação.

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 O roaz é um pequeno cetáceo, mais propriamente um golfinho (Tursiops truncatus), igual àqueles que costuma-mos ver na embocadura do rio Sado, de apenas 1,5 a 2 metros de comprimento, que costumamos designar por golfinho-nariz-de-garrafa. É bastante voraz, caça em grupo e persegue as presas usando estratégias de ataque. E os grupos migratórios de atuns são um dos seus alvos preferidos. Atacam-nos de surpresa, para num golpe de agilidade e de força lhes arrancar o fígado, por ser o órgão mais rico em gorduras. Um cardume de atuns, perante um ataque de roazes, é capaz de investir contra a armação e infligir-lhe danos irreparáveis. A presença do roaz na costa algarvia poderia significar a perda de um ano de trabalho. Por isso existiam barcos avançados à armação, como se fossem vigias, para afugentar a tiro ou com pequenos explosivos, os roazes que se aproximassem das praias. As armações de pesca do atum achavam-se espalhadas por toda a costa do Algarve, pertencentes a grandes empresários ou a sociedades de investidores. Sabe-se que pelo menos em 1797 fainava nestas águas a Companhia de Pescarias do Algarve, fundada anos antes pelo Marquês de Pombal.

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 A mais antiga das armações de pesca do Algarve, denominada «Medo das Cascas», que se lançava na costa de Tavira de direito e de revés, a qual concorria em prestígio e produção com a Companhia de Pesca de Atum do Cabo de Santa Maria e Ramalhete de Faro.

Estima-se que nos meados do séc. XIX aquelas armações capturavam entre 15 a 20 mil tunídeos por ano, faltando-nos porém dados estatísticos absolutamente fidedignos. Sabe-se, contudo, que o recorde das capturas por redes de cerco pertence às armações do Barril e Medo das Cascas, que no ano de 1881 pescaram respectivamente 46.825 e 40.729 atuns, de direito e de revés. Importa acrescentar que era o Algarve a única região do país onde se pescava o atum através das artes do cerco. Apesar das vetustas tradições dessas artes e dos rendíveis proventos obtidos pelas várias armações que se lançavam na região, o certo é que no princípio do séc. XX diminuiu significativamente o número das armações de pesca lançadas na costa algarvia. Basta dizer que, passado o período das grandes encomendas suscitadas pela necessidade de abastecimento dos exércitos beligerantes na I Guerra Mundial, na zona do sotavento, que foi sempre a mais produtiva em capturas, restringiu-se ao lançamento anual de apenas seis armações, cujas concessões se distribuíam da seguinte forma: duas entre o Cabo de Santa Maria e Quarteira e as restantes quatro entre a barra da Fuzeta e Monte Gordo. O número de homens empregues na campanha anual dessas seis armações excedia as três centenas, cuja faina de captura se iniciava quando os tunídeos vindos do Atlântico se aproximavam do Mediterrâneo para desovarem. Era a chamada “pesca de direito” que decorria entre 1 de Maio e 30 de Junho, sendo após essa data desarmados os cercos que se lançavam entre o Cabo de Santa Maria e Quarteira. As restantes quatro armações permaneciam nos seus locais, dedicando-se entre 1 de Julho e 31 de Agosto à denominada “pesca de revés”, isto é, capturando os atuns que regressavam ao oceano após a desova. No tempo em que a pesca do atum era abundante e não existiam ainda as fábricas de conservas, o administrador das armações ganhava por ano cerca de 180 mil réis. Era o único que tinha um salário fixo, porque todos os outros dependiam dos valores apurados no final da faina, pois que todo o cerco funcionava como uma espécie de sociedade. Quanto mais pescassem mais ganhavam. Já agora acrescente-se que o preço de um atum na segunda metade do séc. XIX oscilava entre 500 e 1000 réis, passando nos meados dos anos vinte do século seguinte para 500 a 800 escudos. Os lucros das empresas eram enormes, sobretudo após a República, embora os índices das capturas fossem muito inferiores aos da centúria oitocentista. A primeira fábrica instituída no nosso país para a conservação do pescado foi a Casa Parodi, sediada em Vila Real de Santo António por volta de 1884. Nessa altura os atuns que chegavam à fábrica eram abertos, cortados aos pedaços e conservados em salmoura dentro de grandes pias subterrâneas, parecidas com as antigas cisternas algarvias. Os vapores que exalavam tinham de ser libertados pelos “respiradores” abertos nas paredes dessas caves, pois a sua concentração era altamente perigosa para a saúde, não sendo raros os casos de trabalhadores incautos que aí pereceram ao inalar aqueles letais vapores. Os mercados para os quais se exportava, embalado em barricas de madeira, eram a Espanha e a Itália, ou seja, os mesmos que no tempo das conservas fizeram furor e encheram os bolsos dos grandes empresários estrangeiros aqui radicados. No início da década de trinta do séc. XX a fábrica Parodi dispunha da mais moderna tecnologia para a transformação industrial de mil atuns por dia.

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As unidades de produção fabril pertenciam a empresários espanhóis, gregos, italianos e nacionais, que se espalhavam por Vila Real de Santo António, Tavira, Olhão, Lagoa e Portimão. Alguns desses empresários fabris constituíram famílias que se tornaram verdadeiros clãs da indústria pesqueira algarvia, de que ainda são exemplo os Feu, os Ramirez, etc. As armações que se lançavam nas concessões sediadas na costa de Faro, Tavira e Portimão, davam trabalho a mais de uma centena de homens e o sustento de muitas dezenas de famílias. A armação fervilhava de vida humana, em torno da qual se reunia uma espécie de sociedade pesqueira, sobrevivendo dos magros proventos da faina. Os níveis de pobreza eram flagrantes, mas tolerados por uma sociedade marcada pelas desigualdades sociais. A igreja, por sua vez, estando muito presente na vida quotidiana do pescador, nada fazia para alterar a distribuição da riqueza pelos mais desfavorecidos. Ser pescador era sinónimo de pobreza, desnutrição, analfabetismo e exploração. A vida era encarada assim mesmo, sem queixume nem alternativa. Pobres e ricos coexistiam numa quotidiana urdidura de relações sociais e de dependências económicas tidas por normais, pacíficas e irreversíveis. No topo do ordenamento profissional da armação do atum encontrava-se o mandador (espécie de chefe da sociedade), abaixo do qual se situavam dois preguiceiros, dois interinos e um escrivão. Por conseguinte, a armação enquanto empresa comportava apenas seis funcionários, desempenhando cargos de chefia e organização burocrática. O restante pessoal, mais de uma centena de homens, recebia um salário quase simbólico, já que o seu rendimento final dependia do apuramento global das capturas. Assim, estamos perante um cenário de socialização da riqueza, que se distribui desde o simples moço de fretes até ao barbeiro, ao boticário e ao médico, que são, estes últimos, os profissionais mais qualificados e respeitados da armação. O princípio geral que está por detrás desta sociedade é simples: quanto mais pescarem mais "ganharem". A selecção e matrícula dos pescadores da armação realizava-se em meados de Março, e até ao final da primeira quinzena de Abril tinham de estar prontas as redes, os ferros, as bóias, o copo, etc. Na costa onde se espraiava o cerco formava-se o arraial, que era um pequeno aglomerado de casas de colmo para acomodar os pescadores durante o período de três a seis meses em que decorre a faina, no caso da armação ser lançada só de direito, ou de direito e de revés. O mandador entretanto vai estudando o espaço da concessão, cabendo-lhe decidir se o cerco deve ser lançado mais para a terra ou mais para o mar, mais para este ou para oeste, conquanto não ultrapasse os limites acordados na distribuição das concessões da pesca. Na véspera do lançamento da armação procede-se à benção das redes e restantes apetrechos, pelo pároco ou até mesmo pelo prelado da diocese, conforme a importância económica e social do empresário a que a mesma pertence. O sacerdote asperge com o hissope a água benta sobre as redes estendidas na areia e sobre as centenas de pessoas que coabitam o arraial, abençoando as almas e as alfaias numa simbiose de vida, entre a dependência económica e a crença divina. Uma enorme festa desponta no arraial, com foguetes e folguedos, mas também com preces e promessas aos santos de maior devoção para que a faina decorra com sucesso. Do apuro da armação dependerá o pão dos seus filhos nos dias frios e tempestuosos do inverno. A invocação mais generalizada é de Nossa Senhora, embora também não se esqueça S. Telmo, S. Pedro e até St.º António, ouvindo-se o povo, ajoelhado na praia junto às alfaias da pesca, entoar em coro a Salvé Rainha com fervoroso sentimento da mais pura religiosidade.

Pesca do Atum II - Armações de Tavira

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Típicos de Tavira os bifes de atum são uma maravilha gastronómica. Mesmo quem não seja o maior apreciador de peixe, ficará rendido aos maravilhosos bifes de atum refogados em azeite, tomate, e muita cebola. Como eu digo ao meu filho; - Não é peixe, são bifes de Atum!

 

Receita de Bifes de Atum com tomate à moda de Tavira

 

500gr. de bifes de atum frescos

40gr. de banha

4 tomates maduros

0,5 dl. de azeite

0,5 dl. de vinho branco

1 cebola

3 dentes de alho

2 colheres de sopa de vinagre

1 folha de louro

Meio pimento verde

Sal e pimenta

P1140261.JPGCorta-se o atum em bifes se ainda não vierem cortados, e tempera-se com sal e pimenta, os dentes de alho picados e o vinagre. Corta-se às rodelas a cebola e levam-se ao lume, num tacho, com as gorduras, a folha de louro, o pimento cortado às tiras e o tomate sem pele nem sementes. Refogue um pouco, juntam-se os bifes e o vinho e deixam-se fritar dos dois lados. Pode servir-se na frigideira acompanhados de batatas fritas ou no prato, com legumes e azeitonas e em vez da batata frita pode ser batata cozida.

 

 

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